Ser autor da própria vida

13/01/2021 20:01:00

O que fazer hoje para ter uma velhice com qualidade de vida?

Por Daniela Zigante

Ser autor da própria vida

O Brasil caminha para um perfil demográfico cada vez mais envelhecido. Dados do IBGE, divulgados em julho de 2018, apontam que em 2060 um quarto da população (25,5%) deverá ter mais de 65 anos.

Mas como chegar na “melhor idade” com uma boa saúde? A médica geriatra, com qualificação em clínica geral, medicina preventiva, emergências domiciliares e cuidados paliativos, Arlety Morais Carvalho Casale, dá algumas orientações. Confira a entrevista. 


As estatísticas apontam para uma população cada vez mais envelhecida. O que fazer hoje para envelhecer com qualidade de vida?

Qualidade de vida é possui bem estar físico, psicológico, emocional e espiritual. Para que se consiga um envelhecimento bem sucedido é necessário construir o seu alicerce ao longo da vida. Conhecer-se, em primeiro lugar, para saber realizar as suas escolhas.

Quantas e quantas vezes já ouvi histórias de pacientes que, depois de terem infartado, é que pararam de fumar. Depois do diagnóstico de diabetes, resolveram iniciar atividade física. É possível ter qualidade de vida mesmo com doenças já instaladas, com certeza. No entanto, já existem diversos estudos que mostram que nossos hábitos de vida interferem diretamente na nossa forma de adoecer.

Do ponto de vista físico, realizar atividade física e praticar esportes pelo menos três vezes na semana (150 minutos/semana) com intensidade moderada diminui o risco de doenças cardiovasculares e aumenta muito a produtividade, libido, tônus muscular, memória e qualidade do sono. Além de diminuir a tensão, ansiedade e fadiga.

Alimentar-se de forma adequada, priorizando alimentos ricos em proteínas, fibras, potássio, magnésio e cálcio – tais como frutas e legumes, feijão, nozes, grãos integrais e de baixa gordura de laticínios – também é um hábito que ajuda, e muito, a controlar doenças existentes e auxilia em um envelhecer mais saudável.

Do ponto de vista psicológico e emocional, manter-se ativo socialmente, inserido na sociedade, cativando amizades são atitudes promissoras.

Acredito que as informações sobre o quê fazer para evitar o adoecimento estejam na mídia e sejam fácil acesso. A questão é: como se organizar para poder fazer tudo isso, principalmente quando nos vemos ocupados no dia a dia, sem tempo. É necessário, então, decidir mudar e, a partir disso, começar.

Muito se fala em “envelhecimento ativo”. O que significa isso?

Envelhecimento ativo é ser autor da sua vida. É buscar a saúde física cultivando bons hábitos, cuidando das doenças que se instalaram, mas é, também, manter a participação nas questões sociais, econômicas, culturais e civis.

Por exemplo, o idoso que tem dispensa de votar e que vai às urnas por saber da sua importância. A avó que ajuda a cuidar de seu neto. O morador do bairro que participa do Conselho de Saúde. É o senhor que quer ter sua inclusão digital, criando seu e-mail...

A partir de qual idade devemos nos preparar para uma velhice saudável?

Quanto antes iniciarmos o cuidado de forma integral, maiores serão os benefícios para um envelhecimento bem sucedido.

Estudos apontam que as pessoas que chegam aos 70 anos em boa forma física são, em média, tão felizes e saudáveis em termos mentais quanto alguém de 20 anos. Como chegar a essa idade feliz e saudável?

A espécie humana possui programação genética para viver 120 anos. É difícil, porém possível chegar lá: ser comedido em todos seus atos – evitar os excessos em todas as atividades. Conhecer os limites adequados para tudo o que se for realizar. O “segredo” da vida saudável e feliz depende muito de andar, trabalhar, amar e cuidar-se.

Qual que é o lado bom de envelhecer?

Reconhecer-se idoso é o principal ponto para identificar as limitações que o processo natural de envelhecer nos traz e ajustar as expectativas da nossa vida. A maturidade que a idade nos traz pode nos dar mais tranquilidade, menos sofrimento. O acúmulo de vivências torna o idoso mais experiente e valorizar isso é essencial. Essa é uma fase que também pode ofertar mais tempo. Tempo tão precioso porque talvez tenha feito falta durante a idade adulta. Por isso é importante aproveitar e realizar sonhos que antes não foram possíveis.

Como a prevenção em saúde promove um envelhecimento saudável?

Existem vários níveis de prevenção em saúde: a prevenção primária, que orienta evitar os fatores de risco que causam doença, tais como parar de fumar, comer adequadamente, realizar atividade física, evitar quedas etc. Há também a prevenção secundária, que promove a detecção precoce de doenças, o que facilita o tratamento e possibilita a cura em alguns casos de câncer, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral, por exemplo. A prevenção terciária significa “cuidar bem das doenças já instaladas e evitar suas complicações”. Por fim, prevenção quaternária evita os excessos das intervenções médicas e as iatrogenias, que muitas vezes são piores do que as próprias doenças. Portanto, esse conjunto promove um envelhecimento digno.

Para quem já tem mais idade, como encarar o envelhecimento?

Envelhecer é fisiológico, é natural, é esperado. Quem se aceita nessa fase, vivendo o que ela nos traz, é muito mais feliz. E lembremo-nos de que quem não envelheceu é porque morreu antes.

Para vivê-la é preciso estar preparado. Essa é uma fase de perdas, luto. Ter um bom suporte social, estar próximo das pessoas que ama e continuar cativando amizades ajuda a passar por tudo isso.

Como geriatra, a senhora acredita que o tema envelhecimento é tratado de forma adequada pelas pessoas?

A cada dia mais tenho essa percepção, mas muitas pessoas me dizem: vou ao geriatra porque deve ter a fórmula para não envelhecer... A resposta é NÃO! Não temos. Há uma distorção dos conceitos de envelhecer bem e sempre ser jovem.

A grande questão do envelhecimento é aceitar que ele é um processo natural e esperado da vida. A finitude da vida vem de um acúmulo de perdas e todos vamos passar por isso, invariavelmente.

Agora, se mesmo com esse acúmulo de perdas for possível manter a autonomia e a dignidade, considero um envelhecimento bem sucedido.

Do ponto de vista social, há políticas de inclusão do idoso no mercado de trabalho, há iniciativas para criar grupos para atividades para a terceira idade. Existe o Programa de Atendimento ao Idoso (PAI), que oferece um cuidado domiciliar realizado por profissionais e acompanhantes no que diz respeito ao apoio e ao suporte nas chamadas “atividades de vida diárias”. Mas o que me preocupa são os idosos mais debilitados, que muitas vezes precisam de cuidadores 24h. As instituições de longa permanência públicas são insuficientes e o que vejo são famílias se desdobrando, filhos que largam seus trabalhos para oferecerem cuidados aos mais velhos. Há muito espaço para melhorar.

Como a geriatria pode auxiliar no envelhecimento com qualidade de vida?

O geriatra tem um papel importante de gerenciamento da saúde do idoso, com o seu acompanhamento em longo prazo, colocando em cada fase de sua vida as principais prioridades a serem seguidas.

A abordagem de um senhor de 70 anos maratonista é bem diferente da que ocorre com uma senhora de 68 anos portadora de Alzheimer avançado, por exemplo. Identificar as necessidades físicas, sociais e familiares de cada um deles é o nosso maior desafio e expertise.

O que a senhora poderia dizer sobre a qualidade de vida dos idosos hoje?

Há muito que melhorar. Ainda envelhecemos muito mal. O Brasil não teve tempo de se organizar para acomodar todos os seus idosos e por isso hoje vivemos a crise da previdência e a superlotação de hospitais por idosos totalmente dependentes. Além disso, quantas pessoas precisam cuidar de seus pais que, apesar de vivos, estão com as sequelas de doenças crônicas não tratadas?

Ao mesmo tempo, têm surgido muitas possibilidades de inclusão que melhoram a qualidade de vida dos mais velhos: alfabetização para a terceira idade, a inclusão no mercado de trabalho, grupos de atividade física, musicoterapia, arteterapia, dentre tantas.

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