ÊTA! INTERIOR FACEIRO, MUSICAL E VIOLEIRO.

21/12/2020 13:12:00

Por Marília Resende

*fotos e vídeo foram realizados antes da pandemia do novo coronavírus.

ÊTA! INTERIOR FACEIRO, MUSICAL E VIOLEIRO.

Assim como nós, a viola caipira tem um pezinho em Portugal e em outras partes do mundo. Possui uma longa ancestralidade, mas é aqui que ela se transforma e encontra voz própria, vira outra coisa, sendo por isso reconhecida enquanto uma manifestação cultural tipicamente brasileira. A viola caipira é viva em nossa São Carlos devido a iniciativas como a Orquestra de Violeiros. Foi nessa orquestra que o integrante Antônio Raimundo Nascimento se realizou. Proseando com ele não demoramos a perceber seu encantamento por tudo que o instrumento traz e representa: "É uma paixão incondicional! Eu nasci no sul da Bahia e desde lá eu já gostava de música caipira. Eu me considero um caipira. Aí eu vim pra São Paulo e fiquei. Se eu soubesse que era tão bom [tocar a viola] eu tinha começado antes, porque é uma maravilha", conta Antônio.

Como ressalta Antônio Carlos Dovigo, conhecido com Kaia, músico, professor e idealizador da Orquestra Amigos Violeiros de São Carlos, "Não dá pra falar de cultura raiz sem falar da viola caipira. Não tem como desassociar, entendeu?" A música caipira é cativante em muito porque retrata a simplicidade do homem do campo, um homem em paz com a natureza e que não precisa de muito para ser feliz. São singelos os versos da música caipira porque é singelo e verdadeiro o sentimento do caipira. Sabe aquele ranchinho lá no pé da serra? O poeta e compositor Elpídio Santos diria, com toda a convicção do mundo: O lugar é uma beleza, eu tenho certeza você vai gostar.

Mas houve um tempo em que alguns tinham vergonha da música caipira e da tradição simples do ambiente rural. Como conta Kaia, que já na década de 1960 e 1970 participava de roda de violeiros, "era meio complicado tocar viola, porque as pessoas vieram do campo pra cidade e deixaram os valores do campo lá, inclusive a viola caipira. Eu sofri preconceito, pra você ter uma ideia, por tocar viola. Mas fui morar do lado de um vizinho que fazia roda de viola! Então eu fui criado naquele meio e fui indo... Pra poder ganhar dinheiro com música eu toquei em bandas de baile, em barzinho, toquei violão, guitarra... Mas a viola sempre comigo!"

Ah, e como é romântica a moda de viola! O Valderson Mariano, outro integrante da orquestra, diz que "o tempo vai passando, você vai ficando mais velho um pouquinho… Vai voltando para aquele mundo romântico". E como já diz a canção Tristeza do Jeca, cada toada representa uma saudade. "E as músicas antigas são muito fortes nesse ponto. Todas elas têm uma história, uma história bonita". No fim das contas, somos todos um pouco caipiras e saudosistas.

“Nestes verso tão singelo,

Minha bela, meu amô,

Pra mercê quero contá

O meu sofrê e a minha dô.

Eu sou como o sabiá,

Quando canta é só tristeza

Desde o gaio onde ele tá (...)”

Tristeza do Jeca, composição de Angelino de Oliveira.



Hoje, a Orquestra de Violeiros sediada em São Carlos possui dezessete integrantes. "É um número que a gente considera ideal para que possa viajar com van e não ficar muito oneroso", explica o professor. Sobre o repertório, ele esclarece: "No início a gente focava a cultura caipira assim em cheio mesmo, todos os autores desde Tonico & Tinoco, Inezita Barroso, Lima & Leo, enfim. E compositores também, como Orivaldo Santos. Hoje a orquestra tem uma nova cara. Além de músicas de raiz ela pega um pouco de músicas sertanejas pós-raiz, podemos dizer assim. Chitãozinho & Xororó, Leonardo... Porque nas apresentações a gente foi vendo que disso o povo gosta também. Tem mais de 200 músicas".

Kaia entende que a orquestra tem muito a ganhar quando conquista o público do sertanejo atual. Uma vertente puxa a outra e, aos poucos, a música caipira fisga as pessoas de uma maneira arrebatadora, mesmo os mais jovens. Dênis de Oliveira é um dos integrantes que entrou para a Orquestra de Violeiros porque "gostava de música sertaneja mesmo". "Na verdade, eu sempre tive um contato desde criança na casa dos avós. Você ia ouvindo, em rádio do interior...", conta ele.

"Eu acho que o jovem já está percebendo a diferença entre ser violeiro e tocar viola. Não basta você ter uma viola, entrar na internet, pegar umas aulas... Você tem que fazer aula com um violeiro mesmo, ouvir o toque do violeiro, entender o ritmo e tudo mais. A raiz está na mão direita do violeiro". Kaia


Karina Dovigo deixa uma mensagem de motivação para as mulheres: "Eu acho que a mulherada tem que se interessar mais, procurar mais... Essa história de que mulher é sexo frágil não tá com nada não. A gente é violeira, berranteira, pode trabalhar, pode se divertir, pode usar a viola como terapia também... É muito bom!".



Rodrigo Zanc abraçou a viola por influência do avô

Já o  músico araraquarense Rodrigo Zanc, que começou sua trajetória no violão por influência do seu avô Juca Teixeira, teve seu primeiro contato com a viola aos dezesseis anos. "Naquela época a viola não tinha a expressividade que tem hoje. Portanto, era conhecida e estudada dentro do seu próprio universo, da música caipira. Não havia professores e por isso tive que me virar sozinho para aprender. Ela me conquistou fácil, despertando em mim a vocação. Foi com ela que eu comecei a compor", conta o músico.

FOTO: Nalú Fernandes

Zanc tem uma visão muito ampla da viola, que compreende o amor e o respeito pela tradição caipira, mas que também vê como inevitável a ampliação do uso do instrumento em outras vertentes da música brasileira:

"A evolução dos saberes é inevitável e imprescindível. O que não pode, no meu ponto de vista, é esquecer de onde viemos. Dentro do universo da viola, independente do caminho que o violeiro escolheu trilhar, observo um respeito genuíno às tradições ligadas ao instrumento. Muitos tem responsabilidade sobre o fato de a viola ter conquistado o espaço que tem hoje (...) e contribuíram para essa emancipação da viola enquanto instrumento plural, que pode ser usado em qualquer contexto de gênero musical". 

Rodrigo Zanc conta que sonhava ser artista desde menino. "Me lembro como se fosse hoje, quando assistia os programas de música na TV, da sensação ao fechar os olhos e me imaginar no palco". Foi então em 2003, incentivado por familiares e amigos, que resolveu inscrever uma de suas canções no primeiro festival Viola de Todos os Cantos, na EPTV. "E foi a partir daí que as coisas começaram a acontecer", conta. Ele conseguiu. E não foi só o Zanc artista que ganhou com isso, foi também a música de viola e de nossa região.

"Cabe a todos os artistas e apaixonados pela viola brasileira transportar com muito zelo essa cultura ancestral e transmiti-la com responsabilidade às novas gerações", diz Zanc. 

É com o orgulho de quem sempre declamou ao braço da viola que Zanc nos conta: "É uma alegria ver o que está acontecendo com a viola no Brasil. Hoje ela permeia praticamente todos os gêneros da música brasileira, seja no instrumental ou na canção, como protagonista ou coadjuvante. Nossa região é especialmente privilegiada, por várias razões. Foi parte, por exemplo, do roteiro do maior festival do gênero no Brasil! Além disso, a USP de Ribeirão Preto foi a primeira universidade a disponibilizar curso superior com ênfase no instrumento. Isso tudo, claro, junto a fatores históricos relevantes, produziu, produz e ainda produzirá grandes artistas por aqui". 

Viola, todo o meu Brasil conhece

porque ela é a autêntica filha do sertão.

É com ela no peito que eu sempre faço prece

pra não deixar morrer a nossa tradição.

Estrofe do poema Viola, de João Pacífico

Confira um clipe gravado com a Orquestra Amigos Violeiros de São Carlos com uma moda de viola.

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