Adiante! Há sempre um propósito maior

04/12/2020 11:12:00

A importância da superação e da resiliência na vida cotidiana
Por Daniela Zigante

Adiante! Há sempre um propósito maior

Forward! There's Always a Greater Purpose

The Importance of Overcoming and Resilience in Everyday Life

Você já deve ter ouvido falar em psicologia positiva. Aquela que analisa os princípios psicológicos do bem-estar e da felicidade do homem, além de caracterizar os pontos fortes e as virtudes das pessoas. No Brasil, a psicologia positiva tem crescido consideravelmente e, com ela, conceitos e métodos capazes de despertar, estimular e manter a plenitude e a felicidade surgem por toda parte.

Nessa perspectiva é que surge a resiliência. A palavra está na moda e se ainda não entrou na sua vida, vai entrar com certeza. Tem a ver com outra palavra que também está na moda: superação.

Resiliência é uma palavra que vem da Física. Tem a ver com a quantidade máxima de energia que um material pode absorver ao ser submetido a determinado impacto, deformando-se sem se romper e voltando à forma primitiva.

“A inserção da resiliência no campo da psicologia ocorreu por meio da necessidade de identificar aspectos sobre o enfrentamento das pessoas diante de adversidades da vida”, é o que explicam os psicólogos José Carlos Santos Tópor e Claudio S. Hutz no artigo “Psicologia Positiva e o Constructo da Resiliência: uma Revisão Bibliográfica”, em que afirmam que “resiliência é a habilidade do ser humano lidar, superar, aprender e/ou até mesmo se transformar a partir dos imprevistos inevitáveis da vida”. 

Resiliência x Superação, por Cecília Melo Rosa Tavares, psicóloga do Centro de Reabilitação Pulmonar da Faculdade de Medicina do ABC e da Clínica Cia. da Consulta, mestre em Ciências Aplicadas às Atividades Físicas.  

No Brasil, os estudos sobre resiliência ganharam força neste século e, nas definições mais modernas, existe uma consonância entre os especialistas que se referem à resiliência como a capacidade humana de superação. 

Re-si-li-ên-cia é o processo no qual o indivíduo consegue superar as adversidades, adaptando-se de forma saudável ao ambiente externo. Ela é adquirida e desenvolvida através de recursos internos como autoestima e autonomia. 

Su-pe-ra-ção é a forma como a pessoa consegue se estruturar internamente a partir de sentimentos contraditórios, desenvolvendo assim sua resiliência.

Conheça três histórias de resiliência e superação para vencer as adversidades

Ana Garcez | A necessidade de interpretar o que nos acontece



“Resiliência é a palavra dos vitoriosos. Tem que saber adequar à dor em meio à realidade do dia a dia. Superar e lidar com tudo em volta, separar cada coisa, conseguir juntar as partes quebradas e se levantar para seguir”, Ana Garcez, coaching


Quem acompanha Ana Garcez – coaching, palestrante e especialista motivacional – na certa vai dizer que ela é uma mulher bonita, forte, dona de si e com uma vida perfeita.

Sim, ela é tudo isso, mas já viveu muitas adversidades que a tornaram mais forte. Ana sofreu abuso na infância, na vida adulta teve relacionamentos destrutivos, não pode criar um filho, a segunda filha teve um câncer e ao longo de 7 anos passou por 7 cirurgias até perder a perna direita. 

No campo profissional, chegou a abrir e fechar três empresas por causa das instabilidades. Quando achou que já tinha passado por todos os sofrimentos possíveis, em 2015 foi diagnosticada com Lupus, uma doença autoimune. A doença atingiu o coração e com apenas 41 anos passou por duas cirurgias cardíacas. 

Ainda no hospital, decidiu se reinventar e se tornar uma nova pessoa. Começou dois cursos de coaching e resolveu mostrar às pessoas como vencer seus próprios limites, pois era justamente isso o que ela estava fazendo. 

Hoje, Ana é Master Business Coach, especialista motivacional, palestrante e analista comportamental. “Eu acreditei que com muito esforço e luta eu poderia realmente descobrir quem eu era, para quê eu tinha vindo aqui, e o quê eu queria fazer após meu caos”, afirma. 

Resiliência e superação estão sempre juntas com Ana Garcez. “Encontro em cada situação um novo momento, uma nova oportunidade. Muitas coisas continuam acontecendo, mas não importa, pois serão apenas grandes experiências para contar, espalhar sementes de alegria, contentamento, vitórias diárias, sabendo que amor ainda é o melhor remédio”, finaliza. 

Vandier Inácio Medeiros | Tocando em frente apesar das dificuldades


“Foi preciso superar meus medos, não duvidar da minha capacidade e acreditar nas pessoas que estavam ao meu redor. Cada vez que participo de uma competição eu supero todas e quaisquer dificuldades da minha vida e encontro a motivação necessária para superar meus problemas”, Vandier Inácio Medeiros. 

Com 34 anos, o nadador e engenheiro civil, Vandier Inácio Medeiros, segue superando os desafios do dia a dia com resiliência e muita garra. Ele cita a música “Tocando em frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira, para contar que busca alcançar seus objetivos superando os obstáculos em nome da felicidade. 

O mineiro de Passos passou a vida em São Sebastião do Paraíso. Com 20 anos saiu de casa para fazer faculdade em São Paulo e, aos 26 anos, estava casado e trabalhando na área. “Eu tinha acabado de sair da faculdade, era recém-casado e estava na melhor fase da minha vida”, conta ele. 

Foi nessa época que Vandeir descobriu uma doença grave nos olhos: a neuropatia óptica hereditária de lebber mutação NT11/788, uma doença mitocondrial neurodegenerativa que afeta o nervo óptico. Em 8 meses Vandier estava cego. 

“Tinha esperança de ser curado e passei a buscar meios para exercer minha profissão”, conta. “A cura nunca existiu. E, infelizmente, naquele momento eu também não encontrei nenhuma resposta”, diz ele.

Diante das dificuldades foi preciso procurar mecanismos para encarar o mundo que agora se apresentava. O exercício da profissão se tornou mais díficil  e o casamento acabou. Por isso, buscou a reabilitação e a ressignificação da própria vida.“Eu não tinha a opção de não aceitar, eu tinha que entender e tocar em frente”, conta ele.

Passou a desenvolver uma série de atividades, mas só em 2014, quando chegou a São Carlos, a natação deu novo significado à sua vida. “Eu, que sempre fugi das competições, tinha medo e acabei numa equipe de natação de alto rendimento. Mesmo desanimado, era o que tinha para hoje”, conta. 

Com os treinos e apoio da equipe, ao poucos foi enfrentando os desafios diários da nova condição de vida. “Mitcho Bianco, o técnico da equipe, me mostrou que independentemente das limitações físicas ou mentais, era necessário tentar. Na primeira competição chorei como um bebê, mas consegui pular na piscina e dar o primeiro passo para a grande mudança que a vida estava me apresentando”. 

Hoje, Medeiros faz natação, inglês, aulas de braile, sorobã, ioga e terapia. Frequenta aulas de violão e teatro, trabalha com esculturas, dá palestras e ainda faz trabalho voluntário. 

Juarez Donizete Melo | Da infância pobre à retribuição pelas suas conquistas


“Nós temos obrigação de fazer a diferença na vida das pessoas e eu sempre procuro retribuir o apoio que recebi”, Juarez Donizete Melo.

Quando estava na faculdade, o advogado trabalhista Juarez Donizete Melo, presidente da Associação dos Advogados de Ribeirão Preto (AARP), vivia um semestre de cada vez. Chegar à universidade já era uma grande vitória para aquele jovem de origem humilde, o terceiro de quatro filhos da diarista Geny dos Reis Melo e do cortador de cana João Vicente de Melo.

Ele é natural de Igarapava (SP) e mudou-se com a família para Ribeirão Preto (SP) quando ainda era criança. Começou a trabalhar aos 10 anos como ajudante de ordens mirim, função sempre exercida por crianças ou adolescentes. Em um período do dia Juarez trabalhava, no outro ele ia à escola. No intervalo do almoço corria para entregar marmitas e fazer um extra.

“No decorrer da infância tive algumas madrinhas, como uma das patroas de minha mãe, Dona Norma, que era professora e me garantiu vaga em uma das escolas do Sesi, em Ribeirão Preto”, conta.

Juarez obteve o primeiro registro em carteira aos 15 anos. Foi funcionário dos setores administrativo, recursos humanos e de contabilidade em diversas empresas até conquistar o cargo de chefia, cujo salário fosse condizente com seu sonho de tornar-se advogado. Mas a empresa fechou e ele se viu mais uma vez tendo que superar as adversidades para alcançar o sonho de concluir o curso superior. “Empreendi. Comecei com um açougue e uma lanchonete na zona norte da cidade e até servia café em canteiros de obras para aumentar o faturamento”, lembra ele.

Com trabalho árduo se formou em Direito, continuou empreendendo e venceu. Hoje tem seu próprio escritório, especializado em causas trabalhistas, e está sempre envolvido com causas sociais.

Fonte de pesquisa:

“A construção do conceito de resiliência em psicologia: discutindo as origens”, de Juliana Mendanha Brandão, Miguel Mahfoud e Ingrid Faria Gianordoli-Nascimento (Revista Paidéia, 2011, v. 21, n. 49, p. 263-271).

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